Ela
Ela acabou de completar 6 anos, tem um irmaozinho de1 ano e meio, é apaixonada por ele. Estavam todos na sala vendo televisão, o pai, a mae, Ela e o bebê. No meio de brincadeiras, começou a de "serra com serra": Serra com serra, martinho da carambela, ganhamos dinheiro pra comprar... Terra! Este é o momento que Ela, que estava com o menino no colo começou a fazer cócegas nele, adorava a risada doce e feliz vinda dele, mas por um descuido, deixou com que a mao escapasse de um dos bracinhos, fazendo com que a cabeça da criança batesse na mesinha de centro. Assustava, Ela puxo-o rapidamente.
Precisou de 2segundos para que o pai levantar do sofá, logo a mão tomou o garoto de seus braços, enquanto o pai caminhava em sua direção. O medo superou a tristeza de ter machucado o irmão, que na verdade, para alívio dela, o choro dele foi apenas pelo susto da batida. Seu pai não quis saber, em dois passou estava na frente dEla, começou a falar palavras que a menina não conseguia entender. Puxou-a pelo cabelo, a forçando levantar do sofá, empurrou Ela para trás como uma marionete, uma boneca com coração e sentimentos.
Já não era a primeira vez, nem mesmo a segunda, que aqueles olhos a fixavam, transbordando raiva e rancor. Mas rancor de que? Como uma criaturinha de 6 anos poderia provocar tamanho ódio e incoerência?
As lagrimas escorriam de seu rosto macio, enquanto o pai a levava aos empurrões para o quarto. Enquanto isso a mãe tentava conter o choro do menino, que já nao se sabia mais se o choro era pelo susto na batida ou pelo monstro que ele via. A mãe observava a cena sem dizer uma palavra, talvez não pudesse, talvez não a importasse.
Ela, aos prantos, sente seu corpo sendo jogado em direção ao quarto, o pequeno joelho bate no ferro do pé da cama. A dor agora era dividida em três: a cabeça, o joelho e o abandono que sentiu por sua mae.
Vinte quilos sento levantados a pouco menos de 1,80m, sacudidos no ar, como uma caixa contendo algo que não podemos ver. Ela foi arremessada em cima da colcha nova que vovó lhe deu, seguido de palavras como: lixo, merda, retardada, idiota. Não foi na escola que Ela apredendeu os nomes feios.
No meio de gritos e da dor, Ela se encolhe voltada para a parede, abraçando seu ursinho preferido e começa a rezar. Enquanto a voz grave de seu pai atrás, repetia: "Quem tu acha que é? Responde!". Qualquer falava que a menina dissesse teria o mesmo final. "Eu só queria brincar, desculpa". Mas como havia dito, o mesmo fim.
Dois socos a acertaram nas costas, o pai puxou seu cabelo novamente, suspendeu Ela no ar, sacudindo-a e jogava na cama, uma, duas, três vezes. Ela aos gruitos "Pára pai, por favor, desculpa, pára, por favor".
Entre socos, tapas, ao final o pai perdeu o resto de de se juízo comum. Lanço-a contra a parede. Sua mãe apareceu ao ouvir o barulho, tirou o pai de cima dEla aos berros, e fechou a porta do quarto.
Joelho, coração, costas, cabeça e estomago. Já não existiam mais lágrimas, apenas a imagem da porta se fechando e o quarto ganhando a escuridão.
Aos 14 anos, começou a sentir dores fortes cardíacas e a pressão chegou a 22 por 14. Aos 18, dores fortes nas costas, sujeita a uma operação por desgaste. Aos 19 anos, descobriu que os ossos que ligavam o joelho estavam também sofrendo desgaste. Aos 20 começou a ter enxaquecas que só podiam ser tratadas a base de remédios fortes. Aos 22 Ela teve úlcera.

